Resenha: Fique onde está e então corra, de John Boyne
Fique onde está e então corra, de John Boyne
Editora Seguinte
Nota no Skoob: 4,4/5 (http://migre.me/oEkDQ)
Nota no Orelha de Livro: 4/5 (http://migre.me/oEkAf)
MINHA Nota: 8,5/10
Gênero: Drama, Literatura infanto-juvenil
Esta é mais uma história
cativante escrita por John Boyne. Mais conhecido pela autoria de O Menino do Pijama Listrado, John nos
traz outro livro juvenil que, cheio da candura e da inocência infantil, retrata
como uma criança enfrenta as amargas consequências das escolhas terríveis
feitas pelos adultos.
O cenário desta vez é a I
Primeira Guerra Mundial. Alfie nunca se esqueceria do seu aniversário de cinco
anos. Foi em 28 de julho de 1914, o dia em que a Grande Guerra estourou. Tudo
estava pronto para sua festa, mas ninguém pode comparecer, porque não havia
clima festivo. Mas lá estavam seus pais, George e Margie; o velho Bill
Hemperton, vizinho australiano que, para Alfie, tinha quase cem anos; Kalena
Janácek, sua melhor amiga e seu pai, Sr. Janácek, dono da loja de doces e do
sapato mais lustrosos da Inglaterra!
É interessante como as
personagens infantis de John Boyne são meninos de bom coração, cheios de humanidade,
inteligentes e bons leitores, que, por alguma circunstância, tem que ficar
sozinhos, se virar por conta própria e, com isso, amadurecer.
Alfie não foge deste modelo (como
o próprio autor afirmou ali embaixo no vídeo!). Antes da Guerra, sua família era
feliz. Seu pai era o leiteiro e sua mãe, a dona de casa exemplar, cuja
incumbência era cuidar dos homens de sua vida, fazê-los felizes e ser feliz ela
própria. Tudo era maravilhoso. Além disso, eles tinham seus amigos da rua
Damley, onde moravam na casa nº 12.
Contudo, tudo muda depois da
Guerra. Seu pai logo se alista. Sua mãe tem que trabalhar como enfermeira em
turnos de mais de 14 horas, lavar roupa para fora e ainda costurar para uma
dondoca de vez em quando. Todos precisavam fazer algo, havia uma maldita guerra
acontecendo! Desse modo, Alfie se vê sozinho. Na maior parte do tempo, está
acompanhado somente pelo seu exemplar de Robinson Crusoé, que o Sr. Janácek lhe
deu de presente naquele aniversário de cinco anos.
Na verdade, até mesmo a sua
melhor amiga lhe foi tirada. Kalena e seu pai, por serem de Praga, na República
Checa, foram considerados espiões pelo governo inglês. Eles foram levados por
soldados logo no começo da Guerra.
Nesta ideia de que todos deveriam
fazer sua parte, Alfie decide ajudar. Ele pega emprestado a caixa de engraxate
de Sr. Janácek – porque ele iria devolvê-la depois que eles voltassem pra rua
Damley, é claro! – e, escondido de todos, passa a engraxar sapatos na Estação
de Trem King’s Cross. O dinheiro que consegue, coloca às escondidas na bolsa da
mãe.
Na estação, Alfie conhece pessoas
de todo tipo. Ele pode observar os soldados que vão e os que voltam da Guerra,
muitas vezes feridos, sendo recebidos por seus familiares.
Cada personagem na história é
figura das pessoas que, na época, tiveram que enfrentar a Guerra:
- Alfie representa as crianças que passaram a receber menos atenção, que tiveram que se criar por conta própria, já que todos estavam ocupados com a Guerra.
- Margie é a mãe que teve que sair de casa para trabalhar porque seu esposo estava na Guerra. Ela sempre repetia que estavam “perigosamente perto da miséria”.
- George é o soldado que largou tudo para servir à pátria em uma guerra que não era dele, que tinha relação somente com política, dinheiro e luta pelo poder.
- A Vovó Summerfield são as senhoras que tiveram seus filhos tomados e levados para as trincheiras.
- O Joe Paciente, melhor amigo de George, representa os pacifistas, que sofreram miseravelmente pela escolha de não lutarem na Guerra. Na personagem Joe, John nos conta um fato interessante sobre a sociedade da época. Mulheres carregavam penas brancas na bolsa e quando viam um homem em idade para o combate, que não estava na Guerra, entregavam-lhe uma pena em sinal de humilhação.
- Kalena e o Sr. Janácek representam o repúdio e o preconceito que os estrangeiros sofreram.
Outro fato interessante que o
livro retrata é a realidade das trincheiras, que tem relação com o título da
obra, traduzida literalmente da frase que foi ouvida tantas vezes pelos
soldados (Stay where you are and then
leave). Além disso, o autor retrata o massacre que os soldados sofreram, em
especial, ressaltando os problemas psicológicos que sofriam depois das
trincheiras.
O enredo inicial retrata a rotina
de Alfie e das pessoas de sua convivência durante a Guerra, mas, em determinado
momento, volta-se para a busca de Alfie por saber o que acontecera ao seu pai
que, de repente, para de escrever cartas.
O book trailer é lindo! Emocionei-me
ao assistir. Ele consegue expressar todo sentimento que temos durante a
leitura. É uma pena que não tenha conseguido a versão em português... Me
desculpem.
A narrativa é em terceira pessoa.
Um narrador muito próximo a Alfie, mas que visivelmente não é uma criança. A
mim, pareceu-me como se o narrador fosse o próprio Alfie, adulto, contando sua
história. O John Boyne explica em palestra que ele não se sente confortável em
colocar-se sob a ótica de uma criança. Ele não conseguiria narrar como primeira
pessoa sem desnaturar as características infantis. Por isso, em seus livros
juvenis, prefere escrever em terceira pessoa.
Por fim, ainda me valendo de sua
paciência, leitor, quero comentar que a capa do livro é simplesmente maravilhosa,
que a editora escolheu acertadamente manter a arte da capa original. Além
disso, os capítulos recebem nome em canções que foram escritas durante a guerra
ou que se tornaram populares na época. Desse modo, conseguimos entender, ainda
que um pouquinho, dos sentimentos que a população real nutria, expressados por
meio da arte.
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| Capa original |
É um livro meigo, sensível, cheio
de fatos sociais contados de forma branda e natural. Aqui entendemos não os
motivos políticos e econômicos da I Guerra Mundial, mas a cicatriz na vida das
crianças, dos pais, dos filhos, das mães e das esposas, da gente que sofreu a
crueldade de um tempo de trincheiras.
Aqui está a palestra que o autor
ministrou para o público do livro (crianças e juniores), expondo ele mesmo
sobre a obra. Está em inglês e sem legendas... Mas para quem sabe um pouco de
inglês seria maravilhoso assistir. Eu mesma passaria duas horas me regozijando
em ouvir tantas palavras que exalam conhecimento!
Espero que leiam e gostem!
Beijos!






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