Resenha: Fique onde está e então corra, de John Boyne

13:27 Unknown 0 Comentarios





Fique onde está e então corra, de John Boyne
Editora Seguinte

Nota no Skoob: 4,4/5 (http://migre.me/oEkDQ
Nota no Orelha de Livro: 4/5 (http://migre.me/oEkAf)
MINHA Nota: 8,5/10
Gênero: Drama, Literatura infanto-juvenil

Esta é mais uma história cativante escrita por John Boyne. Mais conhecido pela autoria de O Menino do Pijama Listrado, John nos traz outro livro juvenil que, cheio da candura e da inocência infantil, retrata como uma criança enfrenta as amargas consequências das escolhas terríveis feitas pelos adultos.
O cenário desta vez é a I Primeira Guerra Mundial. Alfie nunca se esqueceria do seu aniversário de cinco anos. Foi em 28 de julho de 1914, o dia em que a Grande Guerra estourou. Tudo estava pronto para sua festa, mas ninguém pode comparecer, porque não havia clima festivo. Mas lá estavam seus pais, George e Margie; o velho Bill Hemperton, vizinho australiano que, para Alfie, tinha quase cem anos; Kalena Janácek, sua melhor amiga e seu pai, Sr. Janácek, dono da loja de doces e do sapato mais lustrosos da Inglaterra!
É interessante como as personagens infantis de John Boyne são meninos de bom coração, cheios de humanidade, inteligentes e bons leitores, que, por alguma circunstância, tem que ficar sozinhos, se virar por conta própria e, com isso, amadurecer.
Alfie não foge deste modelo (como o próprio autor afirmou ali embaixo no vídeo!). Antes da Guerra, sua família era feliz. Seu pai era o leiteiro e sua mãe, a dona de casa exemplar, cuja incumbência era cuidar dos homens de sua vida, fazê-los felizes e ser feliz ela própria. Tudo era maravilhoso. Além disso, eles tinham seus amigos da rua Damley, onde moravam na casa nº 12.


Contudo, tudo muda depois da Guerra. Seu pai logo se alista. Sua mãe tem que trabalhar como enfermeira em turnos de mais de 14 horas, lavar roupa para fora e ainda costurar para uma dondoca de vez em quando. Todos precisavam fazer algo, havia uma maldita guerra acontecendo! Desse modo, Alfie se vê sozinho. Na maior parte do tempo, está acompanhado somente pelo seu exemplar de Robinson Crusoé, que o Sr. Janácek lhe deu de presente naquele aniversário de cinco anos.


Na verdade, até mesmo a sua melhor amiga lhe foi tirada. Kalena e seu pai, por serem de Praga, na República Checa, foram considerados espiões pelo governo inglês. Eles foram levados por soldados logo no começo da Guerra.
Nesta ideia de que todos deveriam fazer sua parte, Alfie decide ajudar. Ele pega emprestado a caixa de engraxate de Sr. Janácek – porque ele iria devolvê-la depois que eles voltassem pra rua Damley, é claro! – e, escondido de todos, passa a engraxar sapatos na Estação de Trem King’s Cross. O dinheiro que consegue, coloca às escondidas na bolsa da mãe.
Na estação, Alfie conhece pessoas de todo tipo. Ele pode observar os soldados que vão e os que voltam da Guerra, muitas vezes feridos, sendo recebidos por seus familiares.
Cada personagem na história é figura das pessoas que, na época, tiveram que enfrentar a Guerra:

  • Alfie representa as crianças que passaram a receber menos atenção, que tiveram que se criar por conta própria, já que todos estavam ocupados com a Guerra.

  • Margie é a mãe que teve que sair de casa para trabalhar porque seu esposo estava na Guerra. Ela sempre repetia que estavam “perigosamente perto da miséria”.

  • George é o soldado que largou tudo para servir à pátria em uma guerra que não era dele, que tinha relação somente com política, dinheiro e luta pelo poder.

  • A Vovó Summerfield são as senhoras que tiveram seus filhos tomados e levados para as trincheiras.

  • O Joe Paciente, melhor amigo de George, representa os pacifistas, que sofreram miseravelmente pela escolha de não lutarem na Guerra. Na personagem Joe, John nos conta um fato interessante sobre a sociedade da época. Mulheres carregavam penas brancas na bolsa e quando viam um homem em idade para o combate, que não estava na Guerra, entregavam-lhe uma pena em sinal de humilhação.

  • Kalena e o Sr. Janácek representam o repúdio e o preconceito que os estrangeiros sofreram.

Outro fato interessante que o livro retrata é a realidade das trincheiras, que tem relação com o título da obra, traduzida literalmente da frase que foi ouvida tantas vezes pelos soldados (Stay where you are and then leave). Além disso, o autor retrata o massacre que os soldados sofreram, em especial, ressaltando os problemas psicológicos que sofriam depois das trincheiras.



O enredo inicial retrata a rotina de Alfie e das pessoas de sua convivência durante a Guerra, mas, em determinado momento, volta-se para a busca de Alfie por saber o que acontecera ao seu pai que, de repente, para de escrever cartas.
O book trailer é lindo! Emocionei-me ao assistir. Ele consegue expressar todo sentimento que temos durante a leitura. É uma pena que não tenha conseguido a versão em português... Me desculpem.




A narrativa é em terceira pessoa. Um narrador muito próximo a Alfie, mas que visivelmente não é uma criança. A mim, pareceu-me como se o narrador fosse o próprio Alfie, adulto, contando sua história. O John Boyne explica em palestra que ele não se sente confortável em colocar-se sob a ótica de uma criança. Ele não conseguiria narrar como primeira pessoa sem desnaturar as características infantis. Por isso, em seus livros juvenis, prefere escrever em terceira pessoa.
Por fim, ainda me valendo de sua paciência, leitor, quero comentar que a capa do livro é simplesmente maravilhosa, que a editora escolheu acertadamente manter a arte da capa original. Além disso, os capítulos recebem nome em canções que foram escritas durante a guerra ou que se tornaram populares na época. Desse modo, conseguimos entender, ainda que um pouquinho, dos sentimentos que a população real nutria, expressados por meio da arte.

Capa original

É um livro meigo, sensível, cheio de fatos sociais contados de forma branda e natural. Aqui entendemos não os motivos políticos e econômicos da I Guerra Mundial, mas a cicatriz na vida das crianças, dos pais, dos filhos, das mães e das esposas, da gente que sofreu a crueldade de um tempo de trincheiras.

Aqui está a palestra que o autor ministrou para o público do livro (crianças e juniores), expondo ele mesmo sobre a obra. Está em inglês e sem legendas... Mas para quem sabe um pouco de inglês seria maravilhoso assistir. Eu mesma passaria duas horas me regozijando em ouvir tantas palavras que exalam conhecimento!


Espero que leiam e gostem!
Beijos!


0 comentários :

Postagem mais recente Página inicial Postagem mais antiga