Caio Fernando Abreu - Extrapolando as Citações
Quem
nunca viu uma citação de Caio Fernando Abreu pelos facebooks e twitters da vida
que atire a primeira pedra. Para fazer um teste da popularização das citações
de Caio, basta colocar “Caio Fernando Abreu Twitter” no Google, e o que você
vai encontrar como resultado da pesquisa é incontáveis contas de citações do
autor. Citações dele, assim como de Clarice Lispector, se tornaram bastante
comuns, tão comuns que em muitas vezes a autoria nem mesmo é da pessoa a que se
atribui a citação, é apenas uma frase aleatória que encontraram por aí e
resolveram atribuir a autoria a um grande autor para dar certa credibilidade. Mas
qual o sentido de toda essa viralização? Bem, se você não se restringir às
citações que encontra por aí e experimentar ler os textos completos do autor,
garanto que vai entender. E é esse convite que venho lhes fazer. Não sou uma
profunda conhecedora da obra de C. F. Abreu, mas, do pouco que conheço, posso
garantir que vale muito a pena conhecer – e se aprofundar, algo que eu pretendo
fazer.
Meu
primeiro contato com Caio, para além das citações que já havia visto pelas
redes sociais, foi ao assistir à peça “Aqueles Dois” da Cia. Luna Lunera. É um
espetáculo de 2007, que esteve aqui em Vitória da Conquista (BA), salvo engano,
em 2008 ou 2009, num projeto da Petrobrás. A peça é baseada no conto homônimo de
autoria de Caio e é um espetáculo lindíssimo que eu fiz questão de aplaudir em
pé.
Pouco
depois, ganhei de presente de aniversário de um amigo o livro “Fragmentos”, uma
coletânea da L&PM Pocket com oito histórias e um conto, todos de C. F.
Abreu. Leitora preguiçosa que sou, não costumo fazer leituras vorazes, em geral,
acabo demorando bastante para terminar um livro, lendo de pouquinho em
pouquinho, quase em doses homeopáticas, mas não foi o caso desse livro, esse eu
li numa sentada, por duas razões: primeiro porque é pequeno (risos), só tem 138
páginas; segundo e principalmente porque é muito, muito envolvente.
O
estilo de escrever de C. F. Abreu é algo que não dá para deixar de notar – nem
de comentar. É ácido, profundo, verdadeiro e atemporal. Gosto muito da
definição de Luciano Alabarse (diretor de teatro e grande amigo de Caio) sobre
o autor: “Cru, cruel, generoso, excessivo, desafiava a neutralidade que regra
boa parte do que se escreve no Brasil. Queria a página viva, a letra pulsante,
o verbo sagrado, a forma adequada para valorizar aquilo que lhe era a mais
humana de todas as nossas características: a busca, o caminho, a procura de.
Caio era aluno e professor, sujeito e objeto, consciente e intuitivo,
sofisticado e popular, engraçado e depressivo.” Por mais poético que soe, não
há qualquer exagero no que Alabarse disse, esse descrito é exatamente o autor
que eu estou convidando vocês a conhecerem.
Caio
Fernando Abreu, brasileiro, natural de Santiago, Rio Grande do Sul, nasceu em
1948 e morreu em 1996, aos 47 anos. Foi escritor, jornalista e dramaturgo. Declaradamente
homossexual em plena ditadura militar, foi perseguido, refugiou-se em Campinas
e depois se exilou na Europa. Descobriu ser portador do vírus HIV e regressou
ao Brasil em 1994, falecendo dois anos depois. Escreveu contos, novelas, peças
de teatro, romances e crônicas. Não se encaixava num só estilo, escrevia de
tudo. Recebeu diversos prêmios de literatura e dramaturgia, tanto em vida
quanto após a sua morte.
Então,
fica a minha indicação para vocês que ainda não começaram a conhecer a obra de
Caio, ou que, assim como eu, ainda não se aprofundaram em seu conhecimento,
para que saibam que vale a pena embarcar nessa jornada. Caio foi um grande
autor e teve uma grande história, saiu de cena precocemente, mas nos deixou uma
obra incrível para explorar. Deixo este texto como convite para extrapolarmos
as citações verdadeiras e, especialmente, as fictícias que vemos por aí e
conhecermos de fato quem é o autor por trás de toda essa fama.
Obs.: Todas as citações foram retiradas do
livro “Fragmentos”.










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